terça-feira

A vida secreta de Marighella


Marighella (à dir.) com a sobrinha Isa no ombro, ao lado da companheira Clara Charf e do resto da família Grinspum em 1962


A vida secreta de Marighella
 
No ano em que ex-guerrilheiro comemoraria centenário, documentário revela vida íntima do ícone da esquerda e traz rap inédito de Mano Brown

MORRIS KACHANI


"Um dia, faz 40 anos, eu estava indo com meu pai para a escola e ele disse: 'Vou te contar um segredo: seu tio Carlos é o Carlos Marighella'". Assim começa o documentário "Marighella", de Isa Grinspum Ferraz, com estreia prevista para outubro. Em uma hora e 40 minutos, "Marighella" desfia a trajetória do ícone da esquerda brasileira que acabou baleado e morto dentro de um Fusca em 1969, em São Paulo.
Meio século da história do país pode ser contado a partir dos acontecimentos em sua vida: a gênese do comunismo baiano, mulato, do qual Jorge Amado era partidário; o conflito entre integralistas e comunistas; a legalização do Partidão; a clandestinidade; a frustração com Stálin; o golpe militar e, por fim, a luta armada.
Mas o que torna "Marighella" único é o olhar íntimo que só quem era de dentro da família seria capaz de documentar: "Tio Carlos era casado com tia Clara. Eles estavam sempre aparecendo e desaparecendo de casa. Era carinhoso, brincalhão, escrevia poemas pra gente. Nunca tinha associado o rosto dele aos cartazes de 'Procura-se' espalhados pela cidade", continua a voz em off da própria Isa, que assina direção e roteiro do filme.
"A ideia é desfazer o preconceito que até pouco tempo atrás havia contra meu tio. Era um nome amaldiçoado, sinônimo de horror. Além da vida clandestina e do ciclo de prisões e torturas, procuramos mostrar também o poeta, estudioso, amante de samba, praia e futebol, e acima de tudo o grande homem de ideias que ele foi", diz Isa, socióloga formada na USP.
Na esteira da pesquisa que foi feita, surgiram algumas revelações. Clara Charf, companheira de Marighella de 1945 até sua morte, hoje aos 86, desenterrou uma pasta que pertencia a ele, na qual aparecem correspondências, mapas e esboços de ações guerrilheiras. A produção também descobriu uma gravação de Marighella para a rádio Havana, de Cuba. Em sua fala tipicamente cadenciada, ele anuncia o rompimento com o Partido Comunista e a adesão à luta armada. Mesma época em que intelectuais europeus como o cineasta francês Jean-Luc Godard passam a enviar remessas de dinheiro em apoio à sua causa.
O filme ainda traz trilha sonora de Marco Antônio Guimarães e Mano Brown e depoimentos esclarecedores de militantes históricos, como o crítico literário Antonio Candido: "Marighella encarnava moral e psicologicamente o seu povo. Ele era pobre e não abandonou sua classe".
Já a judia Clara enfrentaria resistência do pai ao assumir o relacionamento, no que acabou se transformando numa versão tropical de "Romeu e Julieta". "Carlos era preto, comunista e gói (não judeu)", lembra Clara, aos risos. "Mas era muito doce e, no fim, conquistou a todos."

http://sergyovitro.blogspot.com/2011/08/vida-secreta-de-marighella.html

Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano







Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano
Carlos Mariguella

 

Por Frei Betto



Carlos Marighella, assassinado há 30 anos, foi quem melhor encarnou a resistência libertária à ditadura militar que governou o Brasil durante 21 anos (1964-1985).

A história não é contemporânea de si mesma. Pela ótica da Lisboa quinhentista, o acidente de percurso das caravelas de Cabral representou uma descoberta. Segundo os índios pataxós de Monte Pascoal, significou uma invasão e, em seguida, um genocídio.

Em nossas escolas, estudam-se as invasões francesas e holandesas, que se impuseram com armas e corsários, como no futuro haverão de investigar a invasão hodierna do FMI, onde o garrote é substituído por retaliações, a rendição por acordos, as baionetas pelo fluxo de capitais, os saques por juros e amortizações, os chefes de armadas por ministros da Fazenda subservientes à metrópole.

A história é também um jogo semântico. Embora os telejornais, hoje, pronunciem "guerrilheiros", onde antes diziam "terroristas"; "ditadura", onde antes falavam "governo"; "torturas", onde antes mencionavam "abusos"; o nome de Carlos Marighella ainda não se livrou da pronúncia clandestina. Há quem prefira silenciá-lo para não sentir-se questionado pelo que ele significa de firmeza de convicções e, sobretudo, idealismo centrado no direito de todos os brasileiros à dignidade e à justiça.

Para a história, a vida e a morte de Marighella são muito recentes. À esquerda falta consenso a respeito das reais circunstâncias de sua morte —exceto a de que foi vítima do terrorismo de Estado. Dou a minha versão em "Batismo de Sangue", sem eximir meus confrades de responsabilidades. Dela discorda Jacob Gorender em "Combate nas Trevas", mas concorda Emiliano José em "Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar". Essa polêmica não favorece um melhor conhecimento do que importa —a sua vida de revolucionário brasileiro. Não se forma uma geração sadia sem utopias e figuras paradigmáticas altruístas. A minha, que teve o privilégio de completar 20 anos de idade nos anos 60, salvou-se da "juventude transviada" graças a Luther King e Che Guevara, a dom Hélder Câmara e João XXIII e, sobretudo, à derrota dos EUA na guerra contra uma das nações mais pobres do mundo, o Vietnã. De nossos sonhos brotaram a Bossa Nova e o Teatro do Oprimido, o Cinema Novo e o tropicalismo, o movimento estudantil e as comunidades eclesiais de base, a emancipação da mulher e a contracultura. Acatamos a sugestão de Che: "Seja modesto, queira o impossível".

Marighella situa-se entre aqueles que, com seu sangue, escreveram as mais importantes páginas da história do Brasil: Zumbi, Sepé Tiaraju, Felipe dos Santos, Tiradentes, Cipriano Barata, Frei Caneca, Bento Gonçalves, Angelim, Antônio Conselheiro, o "monge" João Maria, Luiz Carlos Prestes, Francisco Julião e tantos outros. São nomes que ainda não saíram das sombras a que a elite insiste em relegar a nossa história. Em nossas escolas, e nos raros programas televisivos que se referem à história do Brasil, poucos conhecem a geografia semântica de termos como Palmares, Cabanagem, Canudos, Contestado, Farrapos, Praieira, Confederação do Equador, Coluna Prestes.

Filho de imigrantes italianos, Marighella encontrou no Partido Comunista o esteio que lhe forjou o vigor combatente. Deputado federal constituinte, não se deixou cooptar por aqueles que, após a ditadura Vargas, buscaram um pacto político que não incluía os direitos econômicos das classes populares. Marighella não ambicionava o poder, mas o Brasil soberano, livre da submissão ao capital estrangeiro.

Por fidelidade a suas origens operárias, rompeu com o PCB para aderir ao primado da ação. Estava cansado de documentos e palavras, quando o momento exigia, como ainda hoje, mudanças radicais na estrutura social brasileira. Queria uma revolução. Porém, desde os anos 30, a elite brasileira repete com insistência: "Façamos a revolução antes que o povo a faça". É o que se vê nesses supostos projetos contra a pobreza apadrinhados, em véspera de eleições, por aqueles que se situam entre os responsáveis pela escandalosa desigualdade social reinante no Brasil.

Uma nação ou uma pessoa que se envergonha de sua própria história corre o risco de perder raízes e identidade, qual colonizado que louva o colonizador e procura imitá-lo. A vida de Marighella foi um gesto de oblação. Trinta anos depois de morto, ele prossegue desafiando a generosidade dos vivos, e apontando, para o nosso país, um caminho de futuro, onde todos tenham saúde, educação, trabalho e moradia. É o que basta.      

Jorge Amado, para Carlos Marighella


Reconhecimento

 Jorge Amado

 “Chegas de longa caminhada a este teu chão natal, território de tua infância e adolescência.

Vens de um silêncio de dez anos, de um tempo vazio, quando houve espaço e eco apenas para a mentira e a negação.

Quando te vestiram de lama e sangue, quando pretenderam te marcar com o estigma da infâmia, quando pretenderam enterrar na maldição tua memória e teu nome.

Para que jamais se soubesse da verdade de tua gesta, da grandeza de tua saga, do humanismo que comandou tua vida e tua morte.

Trancaram as portas e as janelas para que ninguém percebesse tua sombra erguida, nem ouvisse tua voz, teu grito de protesto.

Para que não frutificasses, não pudesses ser alento e esperança.

Escreveram a história pelo avesso para que ninguém soubesse que eras pão e não erva daninha, que eras vozeiro de reivindicações e não pragas, que eras poeta do povo e não algoz.

Cobriram-te de infâmia para que tua presença se apagasse para sempre, nunca mais fosse lembrada, desfeita em lama.

Esquartejaram tua memória, salgaram teu nome em praça pública, foste proibido em teu país e entre os teus.

Dez anos inteiros, ferozes, de calúnia e ódio, na tentativa de extinguir tua verdade, para que ninguém pudesse te enxergar.

De nada adiantou tanta vileza, não passou de tentativa vã e malograda, pois aqui estás inteiro e límpido.

Atravessaste a interminável noite da mentira e do medo, da desrazão e da infâmia, e desembarcas na aurora da Bahia, trazido por mãos de amor e de amizade.

Aqui estás e todos te reconhecem como foste e serás para sempre: incorruptível brasileiro, um moço baiano de riso jovial e coração ardente.

Aqui estás entre teus amigos e entre os que são tua carne e teu sangue. Vieram te receber e conversar contigo, ouvir tua voz e sentir teu coração.

Tua luta foi contra a fome e a miséria, sonhavas com a fartura e a alegria, amavas a vida, o ser humano, a liberdade.

Aqui estás, plantado em teu chão e frutificarás. Não tiveste tempo para ter medo, venceste o tempo do medo e do desespero.

Antonio de Castro Alves, teu irmão de sonho, te adivinhou num verso: “era o porvir em frente do passado”.

Estás em tua casa, Carlos; tua memória restaurada, límpida e pura, feita de verdade e amor.

Aqui chegaste pela mão do povo. Mais vivo que nunca, Carlos”.

 


 Texto escrito por Jorge Amado, amigo de Marighella e seu companheiro na bancada comunista da Assembléia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados entre 1946 e 1948.

 Lido por Fernando Santana em 10 de dezembro de 1979 – Dia Universal dos Direitos do Homem – por ocasião do sepultamento dos restos mortais de Marighella no cemitério das Quintas, em Salvador.

Clara Sharf, Memórias de Marighella















Mano Brown - Marighella

Marighella - Vídeo

Filme, Batismo de Sangue





Cena do filme "Batismo de Sangue" (2007), de Helvécio Ratton, baseado no livro homônimo de Frei Betto, em que Carlos Mariguella é assassinado pelos agentes do DEOPS paulista.

quinta-feira

Marighella, por Florestan Fernandes

Carlos Marighella: a chama que não se apaga


 Florestan Fernandes

O 4 de novembro de 1969 incorporou-se à história graças a um feito policial-militar que culminou na morte de Carlos Marighella. Faz portanto, quinze anos que morreu o principal líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), figura política que se tornara conhecida como militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), seu dirigente de cúpula e também seu deputado no Congresso que elaborou a Constituição de 1946. Ele foi perseguido como a caça mais cobiçada e condenado à morte cívica, à eliminação da memória coletiva. Só em dezembro de 1979, quando seus restos mortais foram trasladados para Salvador, sua cidade natal, Jorge Amado proclamou o fim da interdição expiatória: “Retiro da maldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nome de baiano: Carlos Marighella”. No ano passado, removemos outra parte da interdição, em uma cerimônia pública de recuperação cívica e de homenagem que “lavou a alma” de socialistas e comunistas em São Paulo.

Um Homem não desaparece com a sua morte. Ao contrário, pode crescer depois dela, engrandecer-se com ela e revelar sua verdadeira estátua à distância. É o que sucede com Marighella. Ele morreu consagrado pela coragem indômita e pelo ardor revolucionário. Os carrascos trabalharam contra si próprios; ao martirizá-lo, forjaram o pedestal de uma glória eterna. Agora, esse homem volta à atualidade histórica. Ele não redimiu os oprimidos nem legou um partido novo. Mas atravessou as contradições que vergaram um partido que deveria ter enfrentado a ditadura revolucionariamente, acontecesse o que acontecesse. Desmascarou assim a realidade dos partidos proletários na América Latina. Em uma situação histórica de duas faces (como gosto de descrever), contra-revolução e revolução ficam tão presas uma à outra que são os dois lados de uma mesma moeda. À superfície, parece que a luta de classes opera em mão única – no sentido e a favor dos donos do capital e do poder. Todavia, no subterrâneo (na “infra-estrutura da sociedade” ou no “meio social interno”) existem várias fogueiras, e o aparecimento de alternativas históricas pode depender de “um punhado de homens corajosos” ou de partidos organizados e preparados para a revolução.

Em vários países da América Latina, entre eles o Brasil, a burguesia – apesar da dependência econômica, cultural e política – está encravada nas estruturas de poder nacional e as controla com mão de ferro. As ditaduras, “tradicionais” ou “modernas”, marcam as oscilações súbitas, às vezes de curta duração, da guerra civil latente para a guerra civil aberta. Nenhum partido dos oprimidos pode pretender-se revolucionário, na orientação socialista ou comunista, se não estiver preparado para enfrentar tenaz e ferozmente essas oscilações. A “legalidade”, na acepção de uma sociedade civil civilizada, é uma ficção.

O grande valor de Carlos Marighella – como o de outros que enfrentaram corajosa e tenazmente aquelas contradições, com a “crise interna do partido” – está no fato de ter compreendido objetivamente e exposto sem vacilações o que a experiência lhe ensinava. No diagnóstico, algumas vezes, ficou preso a uma terminologia equivocada e a concepções que ele pretendia apurar e superar através de uma prática revolucionária conseqüente com o marxismo-leninismo e com as exigências da situação histórica. Por fim, acabou vitimado pela vulnerabilidade central: a inexistência do partido que poderia abrir novos rumos na transformação revolucionária da sociedade. Um partido desse tipo não nasce de um dia para o outro. Requer uma longa e difícil construção. Marighella caiu nos ardis que apontara, tentando derrotar o inimigo onde era impossível fugir ao seu “cerco militar estratégico”. Não fora ao fundo da análise da revolução cubana, ignorando o quanto uma situação histórica revolucionária simplificara os caminhos daquela revolução. A “via militar” revolucionária, no entanto, se mostraria frágil sob o capitalismo dependente mais diferenciado e, por vezes, avançado na América do Sul, especialmente depois da vitória do Exército Rebelde em Cuba.

As deficiências e os equívocos de Carlos Marighella resultaram de fatores incontroláveis e insuperáveis. Ele foi até onde seu dever exigia, sem meios para tornar a missão necessária realizável. A revolução proletária não é um “objetivo” do partido revolucionário. Ela é, ao mesmo tempo, sua razão de ser, seu sustentáculo e seu produto, mas de tal modo que, quando o partido revolucionário surge, ele é um coordenador, concentrador e dinamizador das forças sociais explosivas existentes. Como assinalou Karl Marx, “a humanidade não se propõe nunca senão os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á sempre que o próprio problema só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir”. O que qualifica e distingue as posições assumidas por Carlos Marighella é o propósito de romper com uma linha adaptativa, que retirava o Partido Comunista do pólo proletário da luta de classes, convertendo-o em “cauda” permanente e em esquerda da burguesia.

O seu marxismo-leninisimo ficou muito mais próximo da intenção que da elaboração teórica e prática conseqüente. O que não o impediu de encontrar, através da prioridade política e da acumulação de uma vasta experiência concreta negativa, uma versão objetiva das sinuosidades do comunismo adaptativo e tolerante que o marxismo acadêmico só descobriu tarde demais ou, então, nunca teve gana de desmascarar. No momento mesmo no qual nos vemos de novo impelidos para os erros do passado, parece indispensável voltar às suas críticas e às razões de suas rupturas (ainda que seja impensável reabsorver o conjunto de soluções teóricas e práticas que inspirou e difundiu). Em três pontos, pelo menos, é indispensável tomá-lo como referência de uma purificação marxista dos nossos partidos revolucionários.

O primeiro ponto tem a ver com os vínculos diretos da teoria com os fatos concretos e com a realidade, pela experiência crítica e pela ação crítica. Essa orientação é básica para a elaboração de um comunismo made in América Latina, construído por nós, embora com raízes marxistas e leninistas. Ele situa em plano secundário o intelectual “teórico”, eurocêntrico, e repele as “soluções importadas”, que impunham os modelos invariáveis de algum monolitismo soviético, chinês, etc.

O segundo ponto é o mais decisivo, pois põe em questão qual é o partido revolucionário que deve surgir das condições econômicas, sociais e políticas dos países da América Latina (e do Brasil, em particular). Uma sociedade civil que repele a civilização para todos e um Estado que concentra a violência no tope para aplicá-la de forma ultra-opressiva e ultra-egoísta envolvem uma barbárie exasperada específica. Tal partido deverá ser, sempre, uma espécie de iceberg, por mais confiável e durável que pareça sua “legalidade”. Isso lhe permitirá interagir dialeticamente nos dois níveis da trasformação revolucionária da sociedade – o burguês, por dentro da ordem, e o proletário e camponês, contra a ordem.

O terceiro ponto refere-se à aliança com a burguesia, que nunca deveria ter alcançado a densidade e a permanência que atingiu. Um partido comunista dócil à burguesia nunca será proletário nem revolucionário e terá, como sina inexorável, que perverter a aliança política. “O segredo da vitória é o povo”. O eixo de gravitação das alianças está, portanto, na solidariedade entre os oprimidos; em suas lutas antiimperialistas, nacionalistas e democráticas, tanto quanto nas suas tentativas de domar a supremacia burguesa, conquistar o poder ou implantar o socialismo.

Em suma, Carlos Marighella era um sonhador com os pés no chão e a cabeça no lugar. Ele ainda desafia os seus perseguidores e merece dos companheiros de rota (e do antigo partido) que levem seriamente em conta sua tentativa de equacionamento teórico e prático do enigma do movimento comunista no Brasil.


Folha de S. Paulo, 12/11/1984   

Carlos Marighella - O Inimigo Número Um da Ditadura Militar.




Carlos Marighella - O Inimigo Número Um da Ditadura Militar. 




Autor:  Emiliano José
Prefácio: Antonio Candido                 

264 pp- São Paulo : Editora Casa Amarela Ltda. 2004.

Resenha:

Emiliano José traça o perfil do revolucionário brasileiro que se tornou o inimigo número 1 da ditadura militar. A primeira parte do livro descreve, em detalhes revelados ao autor por personagens que viveram os acontecimentos, todo o horror experimentado pelo país naquele período de prisões, suplícios, desaparecimentos e mortes, toda a operação montada pela polícia para chegar a Marighella, que a ditadura preferiu fosse eliminado e não aprisionado. A segunda parte trata dos esforços das organizações e entidades de defesa dos direitos humanos, e dos familiares, em resgatar a história e a imagem de pessoas dadas como desaparecidas ou mortas pela ditadura. A terceira e última parte conta a vida de Marighella, desde a infância na Bahia, onde nasceu, à sua jornada política de militante do PCB, de deputado federal, e, por fim, de guerrilheiro. (Fonte: www.carosamigos.com.br)

Marighella: vida e ação criadoras

   
Marighella: vida e ação criadoras


                                                                                                                                              Joaquim Câmara Ferreira


A publicação de alguns trabalhos de Carlos Marighella constitui, a nosso ver, não só uma homenagem ao homem que mais contribuiu a dar um novo rumo ao movimento revolucionário brasileiro, como também uma contribuição ao esforço de quantos se empenham, particularmente na América Latina, em seguir os exemplos dos povos cubano e vietnamita empunhando as armas que a reação conseguiu arrebatar das mãos do Che Guevara e agora, do próprio Marighella.
Nos livros, folhetos e documentos que escreveu desde 1964, nem tudo é original. Neles encontramos muito do que já foi dito por Lênin, Mão Tse Tung, Ho Chi Min, Fidel Castro, Che Guevara e tantos outros. Mas, tampouco se trata de copia. Marighella procura aplicar à realidade brasileira as verdades universais expressadas nas idéias dos grandes líderes das lutas emancipadoras de todos os tempos. E deduz, da analise das condições físicas, econômicas e sociais do Brasil, novos e originais elementos. "A ortodoxia é coisa de religião e da velha religião", acostumava dizer.
A preocupação permanente em fazer a Revolução é o que levou o homem que dedicou toda sua vida à causa do socialismo a elaborar uma nova estratégia global para a luta de libertação dos brasileiros. Para ele, a expressão "o dever de todo revolucionário é fazer a revolução" ao contrário de constituir uma tautologia tinha um sentido muito profundo. Todos os sacrifícios que fez, década após década, fé-los pela revolução. Porém, quando sentiu que os homens da organização a que pertencia se obstinavam na aplicação de fórmulas gastas, insistiam em manter a luta em estreitos limites táticos "até que sejam criadas as condições objetivas e subjetivas para a revolução", compreendeu que tinha chegado o momento para uma mudança radical.
Para ele, as condições objetivas para a Revolução estão criadas há muito tempo, resultado da própria ação do imperialismo e do sistema de propriedade da terra. O golpe de 64 colocou em evidência essa realidade ao criar uma situação na qual se fecharam as válvulas de escape da democracia burguesa. A Revolução estava, portanto, na ordem do dia.  Era preciso elaborar uma estratégia global a partir da premissa da necessidade da luta armada; traçar o caminho da guerrilha rural e urbana; atacar os centros nervosos da ditadura; atacar onde quer que se encontrem aos norte-americanos e aos gorilas. Essa seria a tarefa dos revolucionários que, com seu exemplo, mobilizariam e arrastariam à luta, contingentes crescentes de operários, estudantes, camponeses e gente do povo em geral.
Essa sua visão e também a justa compreensão de que a luta de libertação dos povos da América Latina é uma só, e de que na batalha pela emancipação nacional e a construção do socialismo os latino-americanos terão que unificar seus esforços - tal como no século passado na luta pela independência política - foi o que o levou a participar da conferência da Organização Latino-americana de Solidariedade - Olas.
Seus pronunciamentos de então, através da Rádio Havana-Cuba e da imprensa cubana, repercutiram profundamente no Brasil. Ele se dirigiu diretamente aos revolucionários e ao povo. Limitar a luta ao âmbito partidário seria condena-la à esterilidade das discussões intermináveis dos documentos fastidiosos e, finalmente, ao fenecimento da esperança. Além disso, a esquerda brasileira está atomizada. São vinte ou trinta organizações, todas elas pretendendo ser "o partido" ou a "vanguarda".
A criação burocrática de mais uma organização a nada conduziria. Era necessário inverter os termos do problema. Um programa geral, estratégico e tático, já havia sido apresentado nos documentos aprovados pela conferência da Olas, que sintetizavam as melhores experiências da luta libertadora dos povos da América Latina; suas conclusões coincidiam com o pensamento que amadureceu nos companheiros que tinham se rebelado dentro do PCB e em numerosos revolucionários de outras origens.
O essencial era a ação. "A ação faz a vanguarda", proclama então Marighella. E a direção? A direção é a guerrilha, é o comando guerrilheiro. O comando operativo se confundirá com o comando político militar.  Concentra-se então no estudo da realidade física do Brasil e das experiências das lutas guerrilheiras do passado.
País de proporções continentais, não existem no Brasil montanhas muito altas nem florestas muito densas nas zonas relativamente habitadas. Existem, porém grandes rios e grandes extensões que proporcionam condições para rápidos deslocamentos. O importante seria fugir ao cerco estratégico das forças armadas concentradas na área do litoral e conhecer profundamente toda a configuração - estradas, caminhos, acidentes geográficos, etc. -, das zonas onde os grupos guerrilheiros terão de atuar. Do triângulo de sustentação - Guanabara, São Paulo, Belo Horizonte - partem os "eixos guerrilheiros", apontando ao "coração" do Brasil.
Porém nem a guerrilha estará limitada ao "coração do Brasil", nem o triângulo de sustentação terá que se preocupar somente em fornecer-lhe armas, dinheiro, técnicos, medicina, etc.. A guerrilha terá que se espraiar por todo o Brasil e o poder da ditadura terá que ser desafiado também nos centros vitais do país.
A guerrilha urbana e rural, a sabotagem nas cidades e no campo, a ação dos pequenos grupos e a ação das massas. Esta é a estratégia global da qual Marighella não faz segredo e expõem, até detalhadamente, a todos os revolucionários com quem entra em contato. E isso, não para fazer proselitismo, para coloca-los sob seu comando, mas sim para estimula-los à ação.
Os grupos revolucionários podem unir-se ou atuar separadamente, manter ou não vínculos entre si. O essencial é a ação. Essa é a que despertará a energia revolucionária de nosso povo, a que determinará a formação de um caudal de lutas que nada poderá deter.
Isso é o que unirá realmente a todos os revolucionários, isso é o que fará surgir os comandantes. A vanguarda será a guerrilha, porém os comandantes serão pessoas de carne e osso que se revelarão no processo de luta e que não poderão ser nomeados por decreto nas cidades.
Também a esse respeito ele gostava de recordar o exemplo de Virgulino Ferreira (Lampião), o chefe cangaceiro que durante décadas lutou em seis estados do Nordeste. Inicialmente o chefe do grupo era seu irmão, talvez por ser mais velho. Foram os dons de comandante de Lampião que fizeram que se tornasse o chefe reconhecido e acatado por todos.
Foi partindo dessas idéias básicas, e ao mesmo tempo partindo do zero em termos de armas, recursos financeiros e quadros treinados que ele iniciou a ação em 1968.
De um lado, conjuntamente com outros poucos, trata de conhecer o que chama de "o coração" do Brasil, de entrar em contato com os camponeses, de estudar suas reações e sua disposição de luta. De outro, agrupa em torno de si uns tantos homens e inicia as ações de expropriação.  Pessoalmente vai aos bancos em busca dos recursos indispensáveis para financiar o plano revolucionário. Surgem assim outros quadros, acumulam-se algumas armas, diversificam-se as ações. O anonimato se mantém, não obstante, durante muitos meses. A polícia fareja, mas não tem segurança sobre o verdadeiro sentido dos repetidos assaltos a bancos e atos de sabotagem, nem sabe quem os dirige. Ao mesmo tempo outros grupos revolucionários passam à ação e isso é positivo porque aumenta seu volume ao mesmo tempo em que desorienta a polícia. Porém, em novembro 1968 a polícia da Guanabara consegue certificar-se de que o assalto a um carro transportador de dinheiro foi dirigido por Marighella e de que ele esteve no lugar da ação.  Sua cabeça é colocada a prêmio e é declarado "inimigo público número um".
Manchetes dos jornais, fotografias de páginas inteiras, capas de revistas, cartazes, emissoras de rádio e televisão cobrem todo o país. As versões são todas deformadas, porém, os brasileiros acostumados à censura e ao noticiário oficial, já aprenderam a ler os jornais ao contrário. Interpretam justamente que existe uma atuação revolucionária concreta e que é possível atuar contra a ditadura. Por isso mesmo Marighella dizia que aquele assalto não havia produzido somente 120 milhões de velhos cruzeiros para os fundos revolucionários, mas sim cinco bilhões e 120 milhões de cruzeiros velhos. Pois os técnicos em publicidade estimaram em mais de cinco bilhões o preço que custaria tanta publicidade nos veículos de difusão capitalista.
De toda maneira, as ações prosseguem e o movimento, a essa altura, já tinha crescido e se havia expandido por várias regiões do País. Era necessário consolida-lo em uma organização. Daí o surgimento da Ação de Libertação Nacional. O documento "Questões de Organização" assinala que a organização terá uma frente de massas, dedicada fundamentalmente ao trabalho nas fábricas, bairros, escolas, fazendas, etc., partindo das reivindicações imediatas, mas sempre com uma perspectiva geral revolucionária. A essa "frente" cabe convencer às massas, tanto através da propaganda como da sua própria experiência, da necessidade da luta armada e guerrilheira.
A frente de sustentação, ou logística, deve agrupar os companheiros capazes de contribuir à satisfação direta das necessidades da ação armada e guerrilheira. A frente guerrilheira esta constituída pelos Grupos Táticos Armados - GTA - nas cidades e os homens empenhados em ações parciais no campo. Finalmente, os companheiros empenhados na preparação concreta da guerrilha rural ficam diretamente ligados ao que se acordou chamar trabalho estratégico. Marighella insiste sobre as medidas indispensáveis de segurança e sobre a necessidade de uma intensa ação de agitação e propaganda - armada e não armada - com vistas ao esclarecimento das massas.
Ao mesmo tempo, a Ação de Libertação Nacional não pretende ser "o Partido" nem "a Vanguarda". Ela não surge através de um processo eleitoral, de reuniões e congressos, mas da própria ação. Sua direção é constituída pelos companheiros que mais se destacaram nas diferentes frentes de trabalho, particularmente na frente guerrilheira. Por isso mesmo não se trata de um conjunto cristalizado e regido pelo "centralismo democrático". A vanguarda surgirá efetivamente com o desencadeamento da luta armada no campo, da guerrilha rural e sua transformação em uma prolongada guerra de libertação.
Constituíamos um grupo revolucionário e havia outros. Não pretendíamos ser os donos da revolução, mas somente cumprir com nossa obrigação revolucionária. O que nos interessava, por isso interessava ao movimento revolucionário brasileiro, era que todas as organizações passassem à ação. Elas se somariam sempre em benefício da revolução e facilitariam a aproximação das diversas organizações no processo da ação. Quando for necessário serão realizadas ações concretas comuns, porém, devemos evitar que as organizações se mesclem e surja o risco de serem descobertas pela polícia em caso de prisões. Como se sabe, ações desse tipo têm sido realizadas (por exemplo o seqüestro do embaixador norte-americano e, recentemente, do embaixador alemão) e propiciaram uma aproximação mais estreita entre as organizações.
Foi quando adotava as últimas medidas para garantir a segurança de numeroso grupo de companheiros (Marighella sempre se preocupava mais pela segurança dos outros que da sua própria) e se dispunha a iniciar a luta no campo que Marighella caiu.
Há ainda quem pergunte se a ação prosseguirá depois de um golpe tão sério como o assassinato do principal dirigente da organização, do homem que mais contribuiu à mudança de qualidade no movimento revolucionário brasileiro. Porém, o próprio Marighella tinha muita clareza sobre isso. Respondendo a um jornalista francês da revista Front, em outubro de 1969, que lhe perguntou se ele mesmo conduziria ao final o processo que iniciara, disse:
"Não se trata disso. A revolução não depende de pessoas, pois é uma questão do povo e de sua vanguarda. A parte que me toca foi dar o início. Nossa organização está integrada, em sua maioria, por companheiros de menos de 25 anos de idade. Cabe aos melhores entre eles assumir a direção. Um deles empunhará minha bandeira, ou, se você preferir, meu fuzil".
Em mensagem enviada aos quinze patriotas libertados em troca pelo embaixador norte-americano, expressa uma vez mais sua profunda confiança na continuidade, desenvolvimento e vitória da luta de seu povo:
"O povo brasileiro começou sua caminhada. E avança decidido, ombro a ombro com os povos latino-americanos, com os olhos voltados à revolução cubana, símbolo do triunfo do movimento revolucionário armado".
Naquela noite fatídica de quatro de novembro, os esbirros da ditadura cortaram a vida de um grande líder revolucionário, porém, longe de sufocar a Revolução, deram uma vibração ainda maior ao chamado à luta que foi toda sua vida.
O nome de Carlos Marighella se inscreve hoje com honra ao lado dos nomes de Che Guevara e de centenas de outros heróis da luta pela liberdade, pela independência, por um futuro feliz para a humanidade.
Seu exemplo continuará iluminando a luta libertadora dos brasileiros que saberão vinga-lo com a própria revolução.

Joaquim Câmara Ferreira
Pela direção da Ação de Libertação Nacional
Novembro de 1969

Documentário: Marighella, Vida de Guerrilheiro










domingo

Sobre Marighella



 CARLOS MARIGHELLA

Fundador e dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN).




Depoimento de clara Charf e editores de “Escritos de Carlos Marighella”, Editora Livramento, 1979:


 "O comandante Carlos Marighella dedicou toda sua vida à causa da libertação dos povos. Com quarenta anos de militância, iniciada no Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi assassinado pela ditadura militar em 1969, aos 57 anos. [...] nasceu em Salvador, Bahia a 5 de dezembro de 1911. Ainda adolescente despertou para a lutas sociais. Conheceu a prisão em 1932. poeta, pagou com a liberdade o poema crítico dedicado ao interventor Juracy Magalhães. A militância levou-o a interromper o estudos universitários no terceiro ano.

    Torturas

Em 1935 mudou-se para o Rio. [...] A 1º de Maio de 1936 era novamente preso. Durante 23 dias enfrentou as torturas da Polícia Especial de Filinto Müller. Um ano depois foi libertado e mudou-se para São Paulo. [...] Sua atividade política, então, se concentrava em dois eixos: a reorganização dos revolucionários paulistas, duramente atingidos pela repressão e o combate ao terror imposto pela ditadura de Getúlio. Em 1939 voltou aos cárceres. [...] O revolucionário, testado diante da violência dos interrogatórios, foi submetido a outro tipo de tortura: o cárcere prolongado, o isolamento na ilha de Fernando de Noronha. Sua terceira prisão durou seis anos.

    Constituinte de 1946

Em 1945, conquistada a anistia, voltou à liberdade. Sua capacidade de organização e liderança e seu prestígio público o elegeram deputado à Assembléia Nacional Constituinte de 1946. Representando o Estado da Bahia proferiu [...] denúncias das condições de vida do povo, da crescente penetração imperialista no país e em defesa das aspirações operárias. [...] em 1948 foi cassado e voltou a clandestinidade. Desta vez pelo resto da vida.

    Teoria e Rompimento

No Brasil suas atenções cada vez mai se voltavam para o campo. Em 1958, o nº 1 da revista ‘Estudos Sociais’ publicou um ensaio de Marighella intitulado “Alguns aspectos da Renda da Terra no Brasil’. [...] O início da ruptura de Marighella com a ortodoxia do PCB se manifestou a partir de 1962. Por ocasião da renúncia de Jânio Quadros ele teceu duras críticas ao Partido. O golpe militar de 1964 também é um marco neste distanciamento. A esquerda de um modo geral, e o PCB, principalmente, estavam completamente despreparados para a resistência. [...] poucas semanas após o golpe [...] foi localizado num cinema da Tijuca, no Rio, e preso. Embora baleado a queima roupa, repetiu a postura de altivez das prisões anteriores. Fez de sua defesa um ataque aos crimes da ditadura. A mobilização política forçou o generais a aceitarem um habeas-corpus que novamente lhe deu a liberdade. [...] Marighella caminhava rapidamente para uma ruptura definitiva com a direção do PCB. Em dezembro [de 1966] apresentou uma carta renúncia à Comissão Executiva do PCB, mas permaneceu à frente do Comitê Estadual de São Paulo.

    Surgimento da ALN

Em fevereiro de 1968, em documento intitulado ‘Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo’, Marighella expôs os Motivos do rompimento com o PCB e anunciou o surgimento de uma organização disposta a dar início imediatamente às ações políticas armadas. [...] Com sua presença pessoal, e sob seu comando e de Joaquim Câmara Ferreira a ALN deflagrou, já em 1968, as primeiras operações de guerrilha urbana no Brasil. [...] na noite de 1969, Carlos Marighella foi surpreendido por uma emboscada na Alameda Casa Branca, em São Paulo.

    A Emboscada  

Marighella estava sozinho. Sequer teve tempo de empunhar a arma que trazia dentro da pasta. A fuzilaria desferida pelos policiais comandados pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury fez duas outras vítimas fatais: o dentista Friederich Adolph Rohmann e a própria agente policial Stela Borges Morato.  O “violento tiroteio” referido na nota oficial que comunicou sua morte não passou de uma desordenada troca de tiros entre os próprios policiais. [Foi] Enterrado como indigente no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, seus restos mortais foram transladados para a Bahia em 1980.

    Herança

A morte de Marighella, no entanto, não significou o fim da ALN. Câmara Ferreira e outros companheiros levariam a ALN adiante. Do revolucionário baiano ficaram as idéias e o testemunho de uma vida dedicada inteiramente à luta pela libertação nacional e pela causa do socialismo.

quinta-feira

O pensamento de Marighella

Atualidade de Carlos Marighella

Paulo Cannabrava*

 Três pontos fundamentais do pensamento de Carlos Marighella são de extrema atualidade.

1) Carlos Marighella qualificava a ditadura brasileira de fascista

2) Entendia que o caráter da revolução brasileira é de libertação nacional dando início à construção do socialismo.

3) Propugnava pela formação de uma grande frente de massas, com hegemonia da aliança operário-camponesa para realizar a revolução brasileira



O fascismo

Carlos Marighella conhecia o que foi o fascismo europeu. Em síntese, pode-se dizer que era a ditadura do capital monopolista exercida pelo estado militarizado, utilizando-se de técnicas avançadas de comunicação e manipulação das massas organizadas no partido do governo.

Aqui no Brasil, no essencial, a ditadura militar representou a apropriação do Estado pelo capital monopolista. Essa característica por si só já justifica sua qualificação como fascista.

Não obstante, o fascismo caboclo tem suas especificidades que lhe dão uma aparência externa diferente o suficiente para enganar os incautos. Não utiliza um grande partido de massa, mas implanta um regime de partidos tutelados. No lugar das grandes mobilizações reprime violentamente as organizações populares, castra suas lideranças, manieta a imprensa e censura o pensamento intelectual. As técnicas de propaganda, muito mais sofisticadas, são usadas para alienar, amedrontar, convencer.

O fascismo caboclo teve, no ciclo de governos militares, um caráter nacional. Nisso se assemelhava um pouco mais ao fascismo europeu que embora submisso à hegemonia da potencia imperialista européia de então, a Alemanha hitlerista, procurava privilegiar o desenvolvimento nacional, inclusive o seu próprio capital monopolista. O Brasil não foi à guerra de conquista territorial mas todos os vizinhos latino-americanos ficaram com o pé atrás o acusando de intenção expansionista. Até a bomba atômica estava no livro de receita dos estrategistas discípulos de Golbery

Essa preocupação com o desenvolvimento nacional é a única grande característica de fundo que vai mudar no fascismo caboclo com o advento da Quinta República.  A submissão ao capital monopolista imperialista agora é total. O eixo do capital já não é bancário/industrial e sim financeiro/especulativo. A era Collor/FHC é a do desmanche do parque industrial.

Com relação à política, continua sendo praticada por partidos tutelados, sem propostas ou mesmo personalidade própria. Técnicas cada dia mais sofisticadas de comunicação e de manipulação das massas continuam sendo empregadas para manter as massas alienadas. Analfabetismo, desemprego, exclusão, violência e medo formam um cenário sumamente difícil para o trabalho e desenvolvimento de partidos populares. Nunca, desde D. João VI, tivemos uma imprensa tão submissa.

Carlos Marighella se estivesse entre nós certamente teria muitos motivos para continuar a qualificar o regime da era Collor/FHC de fascismo caboclo.
Libertação Nacional

Carlos Marighella dizia que o caráter da revolução brasileira é de libertação nacional.

A luta de libertação nacional constitui uma etapa na luta dos povos em que o principal objetivo é conseguir a independência e o desenvolvimento. A conquista desse objetivo deve abrir as portas para construir uma sociedade plena de justiça social, humana e solidária, uma sociedade socialista.

O ponto de partida para se alcançar esse objetivo é a perfeita caracterização do inimigo.

Se estivéssemos no tempo de Carlos Marighella, ele diria que o fundamental é derrocar o domínio imperialista, pois a apropriação do estado brasileiro pelo capital monopolista se deu sob a égide do imperialismo. Na década de 60, era o imperialismo das corporações transnacionais hegemonizadas pelo capital estadunidense. Na década de 50 diríamos, simplesmente: o imperialismo ianque.

Hoje é tal a alienação que até no meio intelectual de esquerda se ouve dizer que falar em imperialismo é estar fora de moda.

A moda agora é aceitar que a globalização vai nos redimir de todos os pecados, que se não nos globalizamos nos condenamos à idade da pedra. E não é ironia afirmar-se que é precisamente a tal da globalização que está levando nosso povo à idade da pedra. Nunca a apartheid social foi tão grande.  E o que é na essência a globalização senão a nova cara do imperialismo? É o imperialismo na modernidade.

Como resultado da era Collor/FHC, a relação dívida/PIB chegou, em março de 99, a 52,2% de um PIB de US 729 bilhões. Em 1998, só para pagamento de juros da dívida externa houve um desembolso de US$ 72 bilhões. Assistimos o absurdo de estar pagando, anualmente,  mais de 10% do PIB de juros para os banqueiros nacionais e internacionais.

Com as chamadas privatizações da era Collor/FHC, jogou-se fora, vendeu-se a preço de banana pago com moeda podre, patrimônio nacional que levamos muitas décadas de suor e sangue do trabalhador brasileiro para construir. Com a alienação desse patrimônio – a Vale do Rio Doce, o Sistema Telebrás e outras – arrecadaram no período cerca de US$ 85 bilhões. Paga um ano de juros da dívida! E os tecnocratas a serviço do FMI incrustados nos nossos ministérios em Brasília,  dizem que ainda faltam US$ 40 bilhões do patrimônio público para vender entre o final de 99 e 2000. Não paga um ano de juros da dívida.

Especialistas em planejamento admitem que com o equivalente a14% do PIB de investimentos na área produtiva se pode manter um ritmo de desenvolvimento superior a 6% do PIB.  O Estado quebrado não tem dinheiro sequer para financiar a própria estrutura administrativa. Não há dinheiro para investimento em saúde, educação, geração de energia, etc., etc.. Estamos na segunda década perdida. Vinte anos de estagnação; ou retrocesso??

É preciso gerar três milhões de novos empregos todos os anos só para atender o crescimento vegetativo da população brasileira. Nas duas décadas perdidas não houve geração de novos empregos. Ao contrário, foram extintos mais de três milhões de empregos industriais.

Estivesse entre nós Carlos Marighella ele diria que o principal inimigo continua sendo o imperialismo, agora travestido de globalização; o capital especulativo que está transformando o mundo num grande cassino; os burocratas incrustados na administração pública trabalhando em favor dos interesses imperiais; os oligarcas e burgueses responsáveis e co-responsáveis pelo desmanche do Estado e da Nação.

Nunca, desde Pedro Álvares Cabral fizeram tanto dano ao País. A metrópole colonial saqueava, praticava o genocídio dos índios e negros, mas construía. Os anos de estagnação mais o desmanche do patrimônio das últimas décadas constitui um retrocesso de tal ordem que serão necessários mais 20 ou 30 anos para voltarmos, proporcionalmente, ao mesmo nível e ritmo de produção dos anos 70.
Frente de massas

Identificado o inimigo, diria Marighella, a tarefa principal dos patriotas e democratas é forjar a unidade das forças que o combaterão.

Propugnava então pela formação de uma ampla frente política, que sob a hegemonia da aliança operário-camponesa, conduzisse as massas à revolução. Na conjuntura dos anos 60, em que Cuba empolgava com seu exemplo, acrescentou o ingrediente da guerrilha, porém, concebida como parte de um plano estratégico e tático global. Dizia o documento do Agrupamento Comunista de São Paulo, que selou o rompimento com as teses conciliatórias do PCB e lançou a idéia da resistência armada:

Enfim, o que queremos é construir a estrutura global necessária ao desencadeamento e enraizamento da guerrilha, com o seu núcleo armado operário e camponês, visando transforma-la num exército revolucionário de libertação...

Mas, qual era a proposta de Carlos Marighella para mudar a situação vigente? A resposta pode ser encontrada  no manifesto da ALN lido pelas rádios e  publicado pelos jornais em agosto de 1969. Não se pode deixar de apontar a analogia dessa proposta com a formulada pelos revolucionários da Aliança Nacional Libertadora que em 1935 se diziam contra o imperialismo, contra o fascismo e contra o latifúndio e propunham um governo popular para realizar a reforma agrária, suspender o pagamento da dívida e nacionalizar as empresas estrangeiras. Marighella, com a mesma simplicidade e objetividade afirmava, 30 anos depois:

Pertencemos à Ação Libertadora Nacional e o que propomos é derrubar a ditadura, anular todos os seus atos desde 1964, formar um governo revolucionário do povo; expulsar os norte-americanos, confiscar suas firmas e propriedades e as firmas e propriedades dos que com eles colaboram; transformar a estrutura agrária do país, expropriando e extinguindo o latifúndio, dando terra ao camponês, valorizando o homem do campo; transformar as condições de vida dos trabalhadores, assegurando salários condignos, melhorando a situação das classes medias; assegurar a liberdade em qualquer terreno, do campo político ao campo cultural ou religioso; retirar o Brasil da condição de satélite da política externa dos Estados Unidos, coloca-lo no plano mundial como nação independente.

Será que é preciso mudar alguma linha desse manifesto??



*Paulo Cannabrava Filho é jornalista e foi companheiro de Marighella na ALN

segunda-feira

Rondó da Liberdade

Rondó da Liberdade

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Carlos Marighella

domingo

O país de uma nota só

O país de uma nota só

Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...
Carlos Marighella

quinta-feira

Liberdade

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”
Carlos Marighella



São Paulo, Presídio Especial, 1939

sexta-feira

Carlos Marighella

Carlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a escravidão.

De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais. Aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.

Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no 3o ano, em 1932, quando deslocou-se para o Rio de Janeiro.

Em 1o de maio de 1936 Marighella foi novamente preso e enfrentou, durante 23 dias, as terríveis torturas da polícia de Filinto Müller. Permaneceu encarcerado por um ano e, quando solto pela “macedada” – nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação -- deixou o exemplo de uma tenacidade impressionante.

Transferindo-se para São Paulo, Marighella passou a agir em torno de dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas, duramente atingidos pela repressão, e o combate ao terror imposto pela ditadura de Getúlio Vargas.

Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Na CPI que investigaria os crimes do Estado Novo o médico Dr. Nilo Rodrigues deporia que, com referência a Marighella, nunca vira tamanha resistência a maus tratos nem tanta bravura.

Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia.

Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade. Deposto o ditador Vargas e convocadas eleições gerais, foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Seria apontado como um dos mais aguerridos parlamentares de todas as bancadas, proferindo, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em que tomou, invariavelmente, a defesa das aspirações operárias, denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente penetração imperialista no país.

Com o mandato cassado pela repressão que o governo Dutra desencadeou contra o comunistas, Marighella foi obrigado a retornar à clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu assassinato.

Nos anos 50, exercendo novamente a militância em São Paulo, tomaria parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia. Cada vez mais, Carlos Marighella voltaria suas reflexões em direção do problema agrário, redigindo, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro de uma série de análises teórico-políticas que elaborou até 1969. Nesta fase visitaria a China Popular e a União Soviética, e anos depois, conheceria Cuba. Em suas viagens pôde examinar de perto as experiências revolucionárias vitoriosas daqueles países.

Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a queima-roupa no peito. Descrevendo o episódio no livro “Por que resisti à prisão”, ele afirmaria: “Minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza (...) de que a liberdade não se defende senão resistindo”.

Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1o de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata. Desse momento em diante, intensificou o combate à ditadura utilizando todos os meios de luta na tentativa de impedir a consolidação de um regime ilegal e ilegítimo. Mas, mantendo o país sob terror policial, o governo sufocou os sindicatos e suspendeu as garantias constitucionais dos cidadãos, enquanto estrangulava o parlamento. Na ocasião, Carlos Marighella aprofundou as divergências com o Partido Comunista, criticando seu imobilismo.

Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia, imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme suas próprias palavras, fundou a ALN – Ação Libertadora Nacional para, de armas em punho,  enfrentar a ditadura.

O endurecimento do regime militar, a partir do final de 1968, culminou numa repressão sem precedentes. Marighella passou a ser apontado como Inimigo Público Número Um, transformando-se em alvo de uma caçada que envolveu, a nível nacional, toda a estrutura da polícia política.

Na noite de 4 de novembro de 1969 – há exatos 30 anos -- surpreendido por uma emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista, Carlos Marighella tombou varado pelas balas dos agentes do DOPS sob a chefia do delegado Sérgio Paranhos Fleury.



Resumo biográfico


1911 - No dia 5 de dezembro, Carlos Marighella nasce na Rua do Desterro número 9, na cidade de São Salvador, Estado da Bahia. Seus pais são o casal Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos, e o imigrante italiano, o operário Augusto Marighella. Carlos teve sete irmãos e irmãs.

1929 - Marighella começa a cursar engenharia civil na antiga Escola Politécnica da Bahia, depois de haver estudado no Ginásio da Bahia, hoje Colégio Central. Numa e noutra escola, destaca-se como aluno, pela alegria e criatividade. São famosas suas diversas provas em versos.

1932 - Ingressa na Juventude Comunista. O Partido Comunista havia sido criado em 1922. Com a revolução de 30 uma grande efervescência política varria o Brasil. Marighella participa de manifestações contra o regime autoritário e o interventor Juracy Magalhães. Inconformado com versos de Marighella que o ridicularizavam, Juracy manda prendê-lo e espancá-lo.

1936 - Abandona o curso de engenharia e vai para São Paulo a mando da direção, reorganizar o Partido Comunista, que havia sido gravemente reprimido após o levange de 1935. É, porém, novamente preso e torturado durante 23 dias pela Polícia Especial de Felinto Muller.

1937 - Marighella é libertado pela anistia assinada pelo ministro Macedo Soares e, quatro meses depois, Getúlio dá o golpe e instaura o Estado Novo. Na clandestinidade, Marighella é encarregado da difícil tarefa de combater as tendências internas dissidentes da linha oficial do PCB em São Paulo.

1939 - Preso pela terceira vez, é confinado em Fernando de Noronha. Na cadeia, os revolucionários presos organizam uma universidade popular e Marighella dá aulas de matemática e filosofia.

1942 - Os presos políticos vão para a Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro, porque Fernando de Noronha passa a ser usada como base de apoio das operações militares dos aliados no Atlântico Sul.

1943 - Na Conferência da Mantiqueira, Marighella, mesmo preso, é eleito para o Comitê Central. O Partido Comunista adota linha de apoio ao governo Vargas em razão da entrada do Brasil na guerra, posição de que ele discorda, embora a cumpra, por dever de militância.

1945 - Anistia, em abril, devolve à liberdade os presos políticos. Com a vitória das forças antifascistas, o PCB vai à legalidade e participa da eleição para a Constituinte. Marighella é eleito como um dos deputados constituintes mais votados da bancada..

1946 - Apesar do apoio de Prestes, o general Dutra, eleito Presidente da República, desencadeia repressão aos comunistas. Marighella participa ativamente da Constituinte com um dos redatores do organismo parlamentar. Conhece Clara Charf.

1947 -Ainda no primeiro semestre é fechada a União da Juventude Comunista. Depois, é o próprio Partido que é posto na ilegalidade. Marighela coordena a edição da revista teórica do PCB, Problemas e vive um relacionamento com dona Elza Sento Sé, que resulta no nascimento, em maio de 1948, de seu filho Carlos.

1948 - No início do ano são cassados os mandatos dos parlamentares comunistas. Marighella volta à clandestinidade. Data desse ano seu romance com Clara Charf, sua companheira até o fim da vida.

1949/1954 - Em São Paulo, Marighella cuida da ação sindical do PCB. Sob sua direção o PC se vincula aos operários, participa da campanha "O Petróleo é nosso" e organiza a greve geral conhecida como "dos cem mil" em 1953. Considerado esquerdista pela direção do Partido, é mandado em viagem à China. Lá é internado em razão de uma pneumonia. Depois, vai à União Soviética e volta ao Brasil em 1954.

1955 - A morte de Getúlio Vargas e o início do governo de Juscelino Kubistchek permitem que os comunistas, embora na ilegalidade, atuem de modo mais visível.

1956/1959 - O XX Congresso do PC da União Soviética inicia a desestalinização. O PCB adota a linha da "coexistência pacífica" pregada pela União Soviética. A vitória da Revolução Cubana, porém, contraria frontalmente as posições do movimento comunista internacional.

1960/1964 - A renúncia de Jânio gera uma crise política. Jango toma posse e Marighella passa a divergir da linha oficial do PC, principalmente de sua política de moderação e subordinação à burguesia. Em 1962, divisão do PC dá origem ao Partido Comunista do Brasil - PC do B.

1964 - Com o golpe de abril, instaura-se a ditadura militar. Perseguido pela polícia, Marighella entra num cinema do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, e lá resiste aos policiais até ser diversas vezes baleado, espancado e finalmente preso. Sua resistência transformou sua prisão em um ato político que teve repercussão nacional. É solto depois de 80 dias, depois de um habeas corpus pedido pelo advogado Sobral Pinto.

1965 - Escreve e publica o livro "Por que resisti à prisão", em que aponta sua opção por organizar a resistência dos trabalhadores brasileiros contra a ditadura e pela libertação nacional e o socialismo.

1966 - Publica "A Crise Brasileira", onde aprofunda suas posições críticas à linha do PCB, prega a adoção da luta armada contra a ditadura, fundada na aliança dos operários com os camponeses.

1967 - Na Conferência Estadual de São Paulo as idéias de Marighella saem vitoriosas por ampla maioria - 33 a 3 -, apesar da participação pessoal e contrária de Luiz Carlos Prestes. Vendo que a derrota no VI Congresso era iminente, Prestes inicia um processo de intervenções nos Estados, para impedir a participação de delegados ligados à corrente de esquerda. Marighella viaja a Cuba para participar da conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade-OLAS. O PCB envia telegrama desautorizando sua participação e ameaçando-o de expulsão. Disso resulta uma carta dele rompendo com o Comitê Central do PCB e afirmando que ninguém precisa pedir licença para praticar atos revolucionários. Como represália, é expulso do Partido Comunista. Retorna ao Brasil e funda a Ação Libertadora Nacional-ALN e dá início à luta armada contra a ditadura militar.

1968 - Marighella participa diretamente de diversas ações armadas recuperando fundos para a construção da ALN. No primeiro de maio, em São Paulo, os operários tomam o palanque de assalto, expulsam o governador Sodrée realizam comemorações combativas do dia internacional dos trabalhadores. O Movimento estudantil toma conta das ruas em manifestações contra a ditadura que chegaram a mobilizar cem mil pessoas. Em outubro, porém, o Congresso da UNE é descoberto pela polícia e os estudantes sofrem grave derrota. Também no final do ano, torna-se conhecido o fato de que Marighella comandava parte das ações guerrilheiras.

1969 - No início do ano, a descoberta de planos da Vanguarda Popular Revolucionária - VPR pela polícia antecipa a saída do capitão Carlos Lamarca de um quartel do exército em Osasco, levando um caminhão carregado com armamento para a guerrilha. Em setembro o embaixador norte-americano é feito prisioneiro por um destacamento unificado com integrantes da ALN e do MR-8 e trocado por quinze presos políticos. No dia 4 de novembro, às oito horas da noite, Carlos Marighella caiu numa emboscada armada pelos inimigos do povo brasileiro em frente ao número 800 da alameda Casa Branca, em São Paulo, e foi assassinado. Sua organização, a ALN sobreviveu até 1974.